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Quando a ficção ultrapassa o fronteira do cânone

Começo com uma pergunta que me persegue desde que me conheço como leitor a sério (há 35 anos 10 meses 13 dias 2 horas e 10 segundos), preparava-me para ler o “Valente Soldado Schveik”, de Jaroslav Hasek, embora o falecido senhor Gil, na época, o único livreiro na cidade, achasse que eu não tinha a idade para ler um livro tão sério – porque versava acontecimentos da I Guerra Mundial -, mas que não deixava de ser uma sátira deliciosa contra a guerra e grito veemente de protesto contra todas as atrocidades que então se cometiam.

Isto para dizer que por vezes um autor tem de quebrar com a indignação gratuita que já ninguém liga para, tomando de um discurso menos sério, relevar a realidade circundante.  A suave indignação é bem capaz de gelar inúteis mares de resignação.

Bom, e antes de entrar mais no livro, o que poderia ter uma freguesia como a Fajã de Cima de tão especial se não se falasse dela com um carinho ele mesmo especial e se reinventasse, em regime parcial, uma realidade muitas vezes dura e agreste, ainda que por detrás surjam todos os componentes e todas as experiências humanas esperadas.

Bom, impõe-se já perguntar se já visitou a freguesia da Fajã de Cima como deve ser? Não? Então é porque ainda não leu o livro de Luís Rego, A Fajã de Cima ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto?

A Fajã de Cima é uma freguesia suburbana situada no limite norte da cidade de Ponta Delgada. Mas até aqui nada de novo. Então de que falamos quando falamos das botas de cano e dos saltos altos?

Neste livro, Luís Rego revela uma imaginação prodigiosa e uma narrativa leve, galhofeira, mas não trocista, espirituosa, sobretudo no amontoado de episódios que se vão sucedendo e que revelam uma imaginação desperta e fértil. Ora, esta disposição estética e literária é algo que não é muito frequente nas letras açorianas. E não é frequente porque foi preciso que o autor saísse um dia daquela freguesia, percorresse uma parte do mundo, e lá regressasse para morar, trazendo uma nova visão sobre o local: uma visão distanciada, descomprometida, solta, crítica.

No texto da contracapa, Nuno Costa Santos anuncia o amor que o autor nutre pela sua Fajã de Cima. Ora, que excelente começo. Eu, que vivo na freguesia da Fajã de Baixo, acho que nunca teria coragem de escrever nada sobre a mesma, a não ser o lixo que aumentou drasticamente desde que foi aberto um grande supermercado nos terrenos da ex-Anazor, e a existência de dois fast-food a cerca de 200 metros um do outro e que, tudo somado, produz lixo que daria para encher uma cratera de um cometa menor.

Mas voltemos ao tema deste livro. A Fajã de Cima é um subúrbio verdejante, campo contíguo à formosa cidade de Ponta Delgada. E nessas extensões campestres,  Luís Rego diverte-nos com pequenas narrativas curtas, que se entrecruzam com uma narrativa mais ampla, utilizando uma linguagem que oscila entre o despretensioso e despojado e o refinado subtil.

O livro, aliás, não podia abrir melhor. Nota Introdutória, estamos na página 6: “O Equador divide a superfície da Terra em dois hemisférios: o hemisfério norte, ou setentrional, que contém o polo norte, e o hemisfério sul, ou meridional, que contém o Polo Sul. O raio do equador é cerca de 6 378 km, o que corresponde a um perímetro de 40 075 km”.

Ora quem se lembraria de nos dar um lição de geografia terrestre, relacionando-a com (vamos para a página 7) “a linha imaginária” que “começa no café Carneiro, desce a Canada de Nossa Senhora da Pena, descruza na Fábrica de Bolos Atlântida e vai por aí fora mais 40 073 km até bater na porta de trás do café Carneiro, idealmente para entregar dois ou três barris de cerveja, ou queijadas de feijão.”

A par da lição geográfica, somos introduzidos num universo de ensinamentos sociológicos muito localizados, ou seja, na importância que o café Carneiro (todas as freguesias têm um café Qualquer Coisa, responsável por muita da formação de cariz popular típica de cada localidade) tem para o desenvolvimento recreativo e cultural da localidade. É nesse pequeno centro do mundo, o centro da freguesia, que gira tudo o que interessa. Ou quase tudo.

Não me alongarei muito mais. Um livro não se revela. Pelo contrário, despimo-lo apenas o suficiente para que os leitores descubram os seus insondáveis caminhos, os seus inescrutáveis segredos. Até porque a insondabilidade é coisa do Senhor, e não nos queremos meter por aí.

Não deixe de ler, pois, esse Fajã de Cima, ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto, um excelente companheiro de leitura para a praia, mas também para o campo, para o café da localidade, esplanada, clube de ténis, entre outros.

 

Luís Soares Almeida
Diretor Editorial das Letras Lavadas

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