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Numa visita recente que fiz à Nova Gráfica tropecei neste livro que tinham acabado de imprimir, O Bracinho, de Carlos Tomé, que será lançado no dia 26 de Março, pelas 18h30 no Teatro Micaelense. Mais que seduzido pelo título, resultante de uma certa ideia de cultura popular que existe na ilha de São Miguel no que diz respeito às alcunhas que atribuímos às pessoas, resultado de uma aparência particular ou mesmo de uma deficiência. Eu tive um amigo que era o Pescoço, outro que era o Cabeleira, o Escova, o Marreta. Enfim, como tal mordi logo o isco, como se fosse eu caça grossa, mal sabe o Carlos que tenho pouco mais que 50 quilos. Só parei quando cheguei à última palavra, da última linha, do último capítulo do livro. Impressionado, claro. Muito impressionado.
Agora que a poeira já assentou e já tomei um banho, consigo explicar um primeiro ponto:
– A história do Bracinho podia acontecer em qualquer lugar do mundo. Mas acontece no Açores. As grandes histórias que li de grandes autores passam-se naturalmente longe daqui. Por exemplo, a Pomba, que é uma excelente ensaio ficcional sobre ansiedade, passa-se em Paris. Eu bem sei que sempre terei Paris, mas também sei que não é minha. Os Açores são. O texto ganha uma força emocional impossível de conter. Eu conheço a paisagem, a geografia, as camionetas, o Senhor Santo Cristo dos Milagres e a suas mil e uma facetas, conheço a cultura, a linguística, a tradição, que não é uma tradução. Entra direto do Carlos para mim, sem intermediários, sem necessidade de explicações, sem ruído, apenas se ouve o som que o Milhafre faz quando rasga os céus. E que porte tem ele.
Penso que pesam muito dois factores na escrita do Carlos, o jornalismo, o atalhar a direito, e a maturidade que resultam num arranque de livro impressionante. Daqueles que sabemos que quando se pega, só não se sabe como se vai largar da mão. E claro a história lá continua cheia de ritmo, dinâmica e pulso. O Carlos não tem necessidade de ter graça, não procura ter, porque a tem naturalmente. A Carlos sabe dosear a expressões e coloquialismos na dose certa para não ser espampanante ou exibicionista, mas também para não ser omisso na ideia de existência de uma cultura linguística em São Miguel e Açores e que acredito mesmo existir.
O Carlos é despojado. Está ao serviço da história, e que serviço nos presta, ao longo das 155 páginas, que podiam ser 300, mas acredito valerem muito mais como 155, num texto uno, dinâmico, com pormenores deliciosos, como um à volta das unhas da mão, ou um outro em que se fala de um suposto diário onde simplesmente se escreveria: Nada de novo a dizer. Um piscar de olho a um grande autor, Kafka, que tem várias entradas destas no seu diário, muitas delas espaçadas por meses. É assim a vida de um autor quando é a história que o escolhe. Temos que ter paciência e saber esperar, que é coisa que não vou saber fazer relativamente ao próximo livro do Carlos Tomé.

 

Luís Rego
Copywriter da Publiçor

Outras críticas:

Desassossego Literário: Recensão crítica ao livro “A Fajã de Cima ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto”, de Luís Rego

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