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O Carnaval celebra-se em diversos países ocidentais de tradição e raízes cristãs, em que momentos de excessos e de folia são liberados, atingindo o seu ponto máximo no Entrudo, levando ao ditado popular que “no dia de Carnaval ninguém leva a mal”. E como boa festa popular que é, o Carnaval é feito de tradições, sejam estas desfiles e corsos carnavalescos, matinés para as crianças, bailes de máscaras, caretos, batalhas de água, entre outras.

Neste Top Azores damos-te a conhecer algumas particularidades do Carnaval açoriano, como os já famosos Bailinhos da Terceira e a Batalha das Limas, em Ponta Delgada e os bailes glamourosos do Coliseu Micaelense, como outras mais desconhecidas do grande público, como o Bando da Burra e as Pantas.

Diverte-te então a descobrir algumas tradições carnavalescas típicas dos Açores!

1. Tradição Dia dos Amigos, das Amigas, dos Compadres e das Comadres

Foto: DR

Aliada aos preparativos para o Carnaval, celebra-se a tradição do Dia dos Amigos, das Amigas, dos Compadres e das Comadres nas quatro quinta-feiras que o antecedem.

O intuito desta tradição é, claro, fortalecer os laços de amizade e de solidariedade, quer masculina, quer feminina.

Apesar de carecer de investigação que nos permita ter algum conhecimento das suas origens, esta é uma tradição enraizada nas ilhas, em que homens e mulheres se juntam, habitualmente num jantar, em alegre cavaqueira e trocam presentes, podendo em Noite de Amigas e Amigos acabar em diversão noturna para adultos.

2. Assaltos de Carnaval

Foto: DR

Apesar de o nome dar a ideia de invasão, a verdade, é que estes eram previamente preparados, informando o dono da casa do dia e hora através de carta. Cabia então ao “alvo” do assalto preparar a moradia com uma mesa farta, dentro das suas possibilidades, alguma decoração, com a utilização de feno e faia, e música, para receber os homens mascarados com vestidos coloridos e com perucas elaboradas, acompanhados por vezes de farnéis e de instrumentos musicais, conforme explica Creusa Raposo, Mestre em Património e Museologia em entrevista ao Diário dos Açores de 23 de fevereiro de 2019.

Atualmente, muitos assaltos são organizados em Sociedades Recreativas e Casas do Povo, em que os participantes levam farnéis que partilham com os demais e não raras vezes com direito a um Baile.

3. Danças, Bailinhos e Comédias na ilha Terceira

Foto: DR

Segundo Luiz Fagundes Duarte, Professor associado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o Carnaval ocupa um lugar central no calendário de festividades populares da Terceira onde, mercê de uma feliz coincidência histórica, adquiriu um conjunto de características que o torna único. Uma delas consiste no afastamento dos modelos tradicionais europeus, baseados na antropomorfização dos maus espíritos através da máscara e das indumentárias, como os caretos. Outra característica assenta na não-inscrição da dimensão desfilística que o Carnaval tem assumido um pouco por todo o mundo, com predomínio do modelo sambístico brasileiro. Porém, a característica mais importante do Entrudo da Terceira são as danças, designação popular e genérica para uma espécie cultural híbrida que articula a dança com uma forma dramática, sem dúvida evoluída a partir dos autos medievais de tradição ibérica. Estas danças estiveram também ligadas às touradas de praça, exibindo-se nos intervalos, mas a pouco e pouco foram sendo restringidas ao período do Entrudo e, atualmente, confundem-se com ele.

Foto: Paulo Gil

Segundo Luiz Fagundes Duarte, no seu artigo O Carnaval na Ilha Terceira, estruturalmente, uma dança é uma representação teatral, versificada em redondilha maior rimada (quadras, quintilhas, sextilhas, conforme a opção do autor), que é introduzida, intermediada e encerrada por um corpo de dança (dançarinos) de coreografias simples e pouco variadas, que também atua como coro cantado, acompanhado por músicos (tocadores) de cordas e de instrumentos de sopro. O conjunto é comandado por um mestre ou puxador, vestido de forma exuberante, que dança e se dirige ao público cantando a solo para saudar o auditório, elogiar a freguesia onde se exibem, fazer a apresentação do assunto e do lugar de origem (primeira moda), resumir as partes do enredo não representadas dramaticamente (segunda moda) e, no final da atuação, fazer a conclusão do assunto, explicitando as respetivas lições morais, e apresentar as despedidas à assistência (terceira moda).
O mestre comanda a coreografia, a música e o canto por meio de um apito, deslocando-se no centro da cena, e traz na mão ou uma espada (nas danças de espada, de cariz histórico, dramático ou trágico), ou uma pandeireta (nas danças de pandeiro, de cariz tragicómico e satírico), ou um pequeno pau de fitas (dança de varinha ou de pau de fitas, igualmente de cariz satírico).

Foto: Porque me atraiçoou? – Dança de Espada das Tronqueiras Sta Cruz – Carnaval 2017, por AzoresTV by VITEC

Tradicionalmente, as danças de espada, também conhecidas por danças de dia, executavam-se ao ar livre, nos terreiros, e dirigiam-se ao público em geral.

As danças de espada apresentam, geralmente, temas sérios, narrando a vida e feitos de personagens históricas, bíblicas, ou herdadas das tradições narrativas europeias, incluindo personagens e temas da antiguidade romana ou das lendas arturianas, vidas de santos retiradas das hagiografias, ou então dramas da vida contemporânea, perante os quais o texto assume posições moralistas e conservadoras, marcadas pelos valores católicos.
A audiência, que acompanha atentamente a narrativa, chega a entrar em comoção à medida que vivencia como suas as desgraças encenadas. Tratando-se de temas nobres e solenes, algumas destas danças são repostas no Domingo de Páscoa.
Atualmente, num admirável esforço de adequação do modelo tradicional das danças às novas realidades, verifica-se o aparecimento, no contexto cenográfico das danças e dos bailhinhos, de vários adereços, alguns já bastante engenhosos e complicados, que apoiam o desenrolar da ação. Tal necessidade advém do facto de, cada vez mais, os temas se afastarem, definitivamente, dos temas históricos, bíblicos e hagiográficos ou dos dramas familiares que terão deixado de interessar aos espectadores dada a sua desadequação ao ambiente de folgazia carnavalesca, e de adotarem como alvo as realidades políticas e sociais que de momento chamam a atenção das pessoas, apresentando-as numa perspetiva satírica que, por vezes, assume uma dimensão demolidora de personagens públicas, de políticas, de instituições que funcionam mal e de acontecimentos nacionais que por alguma razão se inscreveram fundo nas preocupações e atenções das pessoas. E então, para além das palavras do texto, será possível encontrar-se em palco adereços como ecrãs de televisão, macas de hospital, fachadas de casas mal desenhadas, navios que adornam no mar alto, adereços homofóbicos, mesas de tribunais, aviões que não voam, seringas, enfim, tudo o que a imaginação puder abarcar de modo que o próprio adereço, pela sua simples existência, provoque o riso.

Foto: Isidro Vieira

Já as danças  de pandeiro e as de varinha, hoje cada vez mais designadas, indistintamente, por bailhinhos, realizavam-se à noite, em lojas e casas privadas, onde a espada não era apropriada, e eram dirigidas a um público adulto. Existe ainda uma outra forma, também conhecida genericamente como comédia, constituída por pequenos grupos de atores-músicos-cantores, geralmente um grupo de velhos amigos, cuja atuação se resume a uma sequência de diálogos satíricos que, pelas temáticas abordadas, não raro de insinuação sexual, arrebatam a assistência.

Outra característica fantástica desta particularidade do Carnaval da Terceira é o facto de as atuações serem gratuitas, arrastando-se até de madrugada, e o público enche as 38 salas de espetáculos da ilha, desde Sociedades Recreativas e Casas do Povo, tanto de Angra do Heroísmo, como da Praia da Vitória, para aplaudir e rir, já que a maioria das manifestações tem um conteúdo cómico e, muitas vezes, com crítica social.

Segundo o historiador Carlos Enes, em entrevista ao Diário de Notícias, dos divertidos ensaios, encarados com a devida seriedade, às apresentações públicas com cada vez mais participantes e assistência, o Carnaval na ilha Terceira tem vindo a conquistar um lugar muito especial nas celebrações do entrudo que se encontram em Portugal.

4. Carnaval da Graciosa

Foto: DR

O Carnaval na ilha Graciosa, um dos mais tradicionais nos Açores, é celebrado com muita dança em vários locais da ilha, em que às típicas músicas da quadra se juntam o “baile mandado“, dançado a um ritmo mais lento e em roda para “recuperar forças”, e ainda o “baile chocolate”, em que os cavalheiros que convidam as senhoras para dançar têm de lhes oferecer um chocolate no bar.

Baile mandado na Filarmónica União Praiense, em Vila da Praia

Segundo o escritor e professor graciosense Victor Rui Dores, o Carnaval da Graciosa tem “uma nítida influência do Carnaval brasileiro. É um Carnaval, acima de tudo, de dança de salão, com a variante muito forte de concurso de fantasias”, conforme referiu em entrevista à Lusa. Talvez venha do Brasil o amor dos graciosenses pelo Carnaval, que segundo Victor Rui Dores “mal acaba o Natal começam logo os bailes na ilha”, uma espécie de preparação para o Carnaval, ainda sem máscaras ou fantasias e que se intensifica “quando faltam três semanas” para a festa do rei mono.

Os “bailes de porta aberta e luz acesa” decorrem, normalmente, entre as 22:00 h e as seis ou sete da manhã do dia seguinte, um pouco por toda a Graciosa, em salões de clubes desportivos, casas do povo e sede dos bombeiros, com entrada gratuita, sendo a tradição local percorrer, na mesma noite, vários bailes.

“Apenas um salão da ilha tem entrada mais ou menos restrita, de resto, os bailes são frequentados por todas as pessoas de forma livre e onde se dança mesmo durante toda a noite”, referiu Victor Rui Dores, acrescentando ser hábito, por volta das seis da manhã, haver “uma fotografia de grupo, para mais tarde recordar”.

5. Dança dos Cadarços

Tradicional Dança dos Cadarços da Ribeira das Taínhas, Vila Franca do Campo, em 2016, por Um Olhar Povoacense

Segundo Creusa Raposo, trata-se de uma tradição do Domingo Gordo, que antecede a Terça-feira de Carnaval. As danças dos cadarços consistem em grupos que dançam pelas ruas, alegrando as localidades. São inspiradas no folclore europeu e português, em que as fitas de cores variadas são entrelaçadas em torno de um mastro central, à medida que decorre a coreografia. Geralmente, são inseridas nos desfiles e corsos de Carnaval.

6. Bailes de Gala do Coliseu Micaelense

Foto: Coliseu Micaelense

Os Bailes de Carnaval com traje de gala, como refere Creusa Raposo, surgem na documentação a partir do século XIX, inicialmente em casas particulares e nas sociedades de cultura e recreio, frequentados pela classe abastada. Instituíram-se como alternativa a uma celebração violenta e por vezes bruta típica desta época festiva praticada nas ruas, cujo ponto máximo se poderá ver na Batalha das Limas, em Ponta Delgada.

7. Batalhas de Água e Batalha das Limas

Foto do blog Let Me Show You Azores

No Carnaval ninguém leva a mal, já dizia o ditado. Uma das características desta época festiva que antecede o período da Quaresma, que é tido como o mais espiritual pelos Cristãos, que deverá ser vivido conforme a disciplina e ideais desta religião, são os “abusos”. O Carnaval é todo ele um contraste com a Quaresma, celebrando-se assim a abundância e as alegrias da “boa vida”, tido como “pecaminosa” aos olhos cristãos; além de ser permitido comer e beber bem, mascarar-se, interpretando novas personagens, a abolição das distinções sociais, sejam elas económicas ou de género, enfim, um verdadeiro desafio à ordem estabelecida pelo status quo. E é nesta ambiência que surge a tradição da Batalha das Limas, relativamente recente, mas resquício das brincadeiras mais rudes e violentas, mencionadas como arcaicas e brutas já no século XIX e que foram referenciadas pelo historiador renascentista Gaspar Frutuoso através de jogos com laranjas e ovos na ilha de São Miguel. Ao longo do tempo foram utilizados igualmente farinha, milho, tremoços e sobretudo água. Inicialmente despejada em baldes e alguidares, no século XIX a documentação faz referência à sua utilização em seringas, bisnagas e pequenos recipientes de cera com água, as limas.

Limas: pequenos recipientes de cera com água. Foto de Contratempo

No dia de Carnaval as pessoas juntam-se no centro da cidade de Ponta Delgada para a Batalha das Limas. Há até quem forme equipas e, dentro de camiões, atire com “mais força” contra as equipas adversárias.
As pessoas saem à rua munidas das suas “armas” e equipadas com capacete e coletes, para não se aleijarem.

Uma modalidade um pouco menos violenta e muito popular entre as crianças é a Batalha de Água, cujo propósito é, claro está, molhar o adversário. As “armas” ficam ao critério de cada um, mas geralmente são utilizadas bisnagas e pistolas de água, balões cheios de água, além de baldes, alguidares e mangueiradas.

8. Pantas

Foto: Visit(a) Maia

As Pantas, uma tradição secular do Carnaval da freguesia da Maia, concelho da Ribeira Grande, têm origem no Entrudo da Península Ibérica. Correspondem a grupos de pessoas que saem à rua, de noite, cobertas por lençóis brancos, numa alusão à morte e aos defuntos a quem se dá vida, assustando quem passa. “Crê-se que esta prática cultural, de pendor católico e profano, foi introduzida pelos primeiros habitantes, quiçá pela mão de Inês Maia, primeira aldeã que deu início ao povoamento da freguesia”, aventa a Casa do Povo da Maia, organizadora do evento.

Todos os anos, por altura do Carnaval, quando anoitece, as ruas são invadidas por Pantas que deambulam de um lado para o outro, assustam quem se atreve a ir à rua, batem às portas e visitam amigos e familiares. Quando a porta se abre, o anfitrião tenta descobrir quem se esconde por baixo do pano branco, oferece iguarias típicas desta época, como malassadas, rosas do Egito, suspiros e licor aos participantes.

9. Dia do bando da burra na ilha do Pico

É uma tradição carnavalesca das freguesias da Ponta da Ilha, no Pico, o bando da burra. Na Piedade, na Ribeirinha e na Calheta de Nesquim a tradição repete-se a cada entrudo.

De acordo com a jornalista Célia Machado, do jornal Açoriano Oriental, que testemunhou esta tradição na freguesia da Piedade em 2018, na tarde da chamada Terça-feira Gorda, a população e forasteiros juntam-se no centro da localidade, no Curral da Pedra. Os mais destemidos apresentam-se com alguma fantasia, ou roupas mais velhas, e um saco de farinha; os mascarados têm a garantia de que a farinha não lhes será atirada. A batalha de farinha faz-se em redor do coreto, durante até a noite já ir longa, sendo apenas interrompida quando o bando da burra entra em cena, lá pelas seis da tarde, e retomada logo em seguida.

O ponto alto da festa é a entrada em cena dos mestres das rimas que formam o bando da burra. Os textos são preparados, por vezes, apenas escassas horas antes da leitura pública dos mesmos, que acontece sempre no coreto. A leitura do bando, sempre com rima mais ou menos perfeita e sem palavras proibidas, compreende os acontecimentos que marcaram, sobretudo, a localidade nos tempos mais recentes, a vida da burra falecida assim como os contornos da sua morte e, numa segunda parte, o testamento que o jumento terá deixado, distribuindo as diversas partes do seu corpo a quem delas precisa. Cada quadra, depois de lida, é acompanhada por um audível “auuuuuaaaa!”, dito pelo bando e com o apoio do público presente.

O bando da burra não é mais do que uma crítica social, com humor e uma pitada de picante, e que deve ser ouvido com o espírito aberto. Quem se mostrar ofendido, o mais certo é ouvir, ali mesmo, uma segunda quadra, improvisada na hora, que lhe é dedicada mas com mais algum toque de picante ou ser mencionado, novamente, no ano seguinte e com uma crítica maior.

10. Gastronomia Típica

Coscorões, Cozido à Portuguesa, Rosas do Egito e Malassadas, respetivamente

O Carnaval é tempo de excessos e isso também se revê na gastronomia típica, em que no Domingo Gordo se degusta carnes gordas, especialmente a carne de porco, além de doçaria frita, como as malassadas, coscorões, fatias douradas, rosas do Egito e, ainda, suspiros, entre outras iguarias.

Fontes pesquisadas para a elaboração deste artigo:

Olivéria Marques. As Tradições de Carnaval nos Açores de ontem e hoje (2019, 23 de fevereiro). Diário dos Açores. Entrevista a Creusa Raposo.

Célia Machado. No Carnaval da Ponta da Ilha há testamento de uma burra (2018, 15 de fevereiro). Açoriano Oriental. Acedido no dia 27 de fevereiro de 2019, em: https://www.acorianooriental.pt/noticia/no-carnaval-da-ponta-da-ilha-ha-testamento-de-uma-burra-286135

Elisabete Silva /Lusa. O carnaval na ilha Graciosa dura três meses (2014, 2 de fevereiro). Diário de Notícias. Acedido no dia 27 de fevereiro de 2019, em: https://www.dn.pt/portugal/acores/interior/o-carnaval-na-ilha-graciosa-dura-tres-meses-3664739.html

Luiz Fagundes Duarte. O Carnaval na ilha Terceira (2010). Comunicação & Cultura, n.º 10: 87-100. Acedido no dia 27 de fevereiro de 2019, em: http://comunicacaoecultura.com.pt/wp-content/uploads/05.-Luiz-Fagundes-Duarte.pdf

Lusa. Carnaval comemora-se com festival de teatro popular na ilha Terceira (2018, 9 de fevereiro). Diário de Notícias. Acedido no dia 27 de fevereiro de 2019, em: https://www.dn.pt/lusa/interior/carnaval-comemora-se-com-festival-de-teatro-popular-na-ilha-terceira-9108473.html

Miguel Bettencourt Mota. Maia mantém tradição com ‘Noite de Pantas’ no Carnaval (2018, 1 de fevereiro). Açoriano Oriental. Acedido no dia 27 de fevereiro de 2019, em: https://www.acorianooriental.pt/noticia/maia-mantem-tradicao-com-noite-de-pantas-no-carnaval-285742

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