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Os Romeiros de São Miguel são uma tradição quaresmal, que existe, possivelmente, desde o século XVI, em que centenas de homens – divididos por ranchos – percorrem a ilha a pé para pagar uma promessa para si próprios ou em nome de outros que não possam cumpri-la, rezando junto de todas as igrejas que tenham um altar dedicado à Virgem.

Neste Top Azores, damos-te a conhecer esta tradição na primeira pessoa, na “voz” de Mário Moura, que conta a sua experiência como romeiro no seu livro Rostos de Fé – Romeiros de São Miguel, com fotografia de José António Rodrigues e editado pela Publiçor.

Livro de onde foram retirados  os excertos da experiência como romeiro de Mário Moura

Preparação da viagem

Bordão

Fui a primeira vez na romaria por curiosidade, mas acabei devoto. Às outras duas, fui do princípio ao fim por pura devoção. Muitos vão para cumprirem promessas próprias ou promessas de outros que não podem ir. Outros vão porque o amigo vai ou até para estar descansado do patrão ou da ‘patroa’ (vide mulher) uma semana.

Não podes dizer que vais na romaria sem que o mestre te aceite. Tens de ser católico e praticamente. Mas sei que, dependendo dos mestres, vai gente sem ser católica.

Nem podes ir sem estar preparado: orações, cânticos e regras de conduta. Foi o meu caso, se bem que não fui a todas as reuniões. Dediquei-me a preparar o traje: o bordão era de araçaleiro.

Hoje em dia o bordão é um acessório dispensável, serviu outrora, os caminhos eram quase todos de terra, mas já só serve para cumprir a tradição. Além do bordão, levei uma saca enorme, incómoda, imprestável, as alças doíam-me nos ombros, além do mais, pouco cabia nela. A função dela não se cumpriu: a de levar comida até ao encontro de famílias. Nos dias que correm, por promessa, vai cada vez mais gente ao encontro do rancho levar o pequeno-almoço, lanche, almoço ou pequenos refrescos.

O xaile e o lenço são dos acessórios mais adequados que conheço para levar na romaria. O xaile protege  do vento e da chuva. Uma chuvinha miudinha nem chega a molhar o xaile. Às vezes, quando chove bastante, tem de ser seco na boca do forno ou na máquina de secar, quando as há. As calças devem ser confortáveis, largas, de modo a que, ao roçar, não causem ferida entre as pernas. Uma das peças, se não a mais importante mas a mais melindrosa, é o que se leva nos pés. Calçado e meias. Deve-se levar calçado ‘já acamado’, habituado ao pé. As peúgas não podem ser grossas ou largas porque causam bolhas.

É importante saber andar correctamente. Não basta estar em forma física para chegar ao fim da romaria. É preciso saber colocar bem o pé no chão, não parte do pé, mas todo o pé, equilibrar o corpo, distribuir bem o peso.

Quando surgem bolhas, mais vale furá-las de imediato com uma linha, deixando-a, no entanto ficar para ir drenando o pus. Familiarizados com os cânticos, conhecedores das rezas, preparados com xaile, bordão, saca, lenço, terços e calçado, é ainda preciso, sobretudo, estar com a mente e o corpo em harmonia. Estar preparado para a dureza do caminho. No caso do rancho da Matriz, saímos na madrugada de Sábado para Domingo e fomos dormir na Feteira Grande. Uma penosa estirada de mais de quarenta quilómetros.

A viagem

A primeira madrugada é diferente de todas as outras sete.

Aí pelas três da manhã, a mente vagueia, o corpo fica ansioso, a cama parece que queima, o colchão tem brasas e neste desassossego pulo da cama. Toca para a missa dos romeiros.

Percorrêra-mos a passo apressado o corredor da igreja feericamente iluminada, a voz dos irmãos do rancho ainda ecoava na igreja com vibrações que fazem eriçar até os pêlos da pele dos mais sensíveis.

Primeiro dia: Da Matriz à Feteira Grande (Domingo)

A ladeira do Lameiro até ao miradouro de Santa Iria é em terra batida. O rancho segue disperso. Começo a sentir-me cansado. A sola das sapatilhas resvala. Agarro-me ao bordão.

O rancho reagrupa-se no fim do caminho de terra. Que vista soberba! O dia já clareou por completo. Tento descansar. Acordara cedo.

Descemos a Ladeira da Velha. O rancho come qualquer coisa lá em baixo, perto da entrada da praia dos Moinhos. Comemos da saca. Um ou outro oferece qualquer coisa ao irmão do lado. Formam-se grupos espontâneos.

O rancho desfila em plena luz do dia pelo Porto Formoso fora, em direcção à Igreja de Nossa Senhora das Graças. Cada um sabe o lugar que deve ocupar no rancho. Isto fica previamente combinado antes da saída. A Ave-Maria levantada ressoa pela rua. Assomam pessoas às portas e janelas.

Por vezes, sentindo dores difíceis de suportar, só me apetecia atirar para bem longe o pesado bordão de araçaleiro, esconder a saca ou comer tudo o que tinha para aliviar o peso.

O almoço, oferecido por irmãos, por alma de familiares falecidos, foi nos Fenais da Ajuda. As sopas, a carne guisada com batatas e o vinho souberam-me ao melhor que havia na face da Terra.

Segundo dia: Da Feteira Grande à Água Retorta (Segunda-feira)

Dorido dos músculos, partido dos ossos, com os ombros massacrados, moído dos pés, a noite não fora suficiente para descansar o cansaço.

Cada rancho é um espelho do seu mestre. A maneira de ser de cada um, o modo como interpreta as regras, como conduz o rancho, varia de rancho para rancho.

Há grupos mais jovens que outros, os mais novos andarão pelos dez anos e os mais velhos pelos sessenta, com feitios e origens sociais e culturais distintas.

A igreja de Água Retorta fica a meio da freguesia, mas pareceu-me ficar no fim do mundo. E eu só dizia: com o corisco, onde raio foi esta gente fazer a igreja! Quando finalmente lá cheguei, o rancho ia saindo.  Irmão, temos que ir para a Casa do Povo.

Um enorme salão, mesas postas, água quente, começo a tremer. Tens febre, irmão. Olha, tenho aqui um Aspegic. Toma e vais ver que amanhã estás como novo em folha. Mas come qualquer coisa para calçar o estômago. Comi sem fome. A colher tremia-me na mão. Tomei o Aspegic dissolvido em água. À excepção de duas ou três crianças recolhidas em casas, o resto do rancho dormiu a lastro em colchões da tropa. Na minha sala devem ter dormido uns vinte irmãos. Custei a adormecer. A meu lado ressonavam. Custou-me a levantar pelas três horas e pouco da manhã mas, aparentemente, a febre passara.

Terceiro dia: De Água Retorta às Furnas (Terça-feira)

O rancho avançava noite escura dentro em direção ao ramal do Faial da Terra. A noite estava estrelada, mas fazia frio. O xaile dava jeito: era quente.

Com as igrejas de Água Retorta e do Faial da Terra “feitas”, para trás, depois de termos comido qualquer coisa à entrada do Faial da Terra, ainda a freguesia dormia, o rancho meteu-se a subir do Faial da Terra em direcção à Povoação.

Naquela noite o rancho iria pernoitar nas Furnas. Estava já tudo combinado, cada rancho já sabe onde fica, onde ouve missa, onde come, onde dorme. O secretariado trata disso tudo.

O dia das Furnas é o dia do calvário das Lombas da Povoação. Por isso mesmo, é um dias bem temido pelos irmãos.

Sendo penoso subir o piso de cimento das Lombas, é ainda assim menos penoso do que descer a Gaiteira da Ribeira Quente.

Nas Furnas, já combinado com o padre, houve missa, em que o rancho participou activamente. Fizemos uma festa linda. Uns leram as escrituras, outros ajudaram à missa e todo o rancho cantou.

Quarto dia: Das Furnas a Água de Pau (Quarta-feira)

Ao terminar o dia de Água de Pau, temos consciência de atingimos o meio da romaria. Mas o rancho está receoso da Gaiteira. E teve razão. Duas desistências durante a descida. Um irmão foi ao Centro de Saúde. Não foram as bolhas, foram as feridas entre as pernas. Uma chaga viva.

Mas regressando à Gaiteira, o grupo provou que era já um rancho de irmãos. Quem precisasse de água e não tivesse água, lá estava um irmão a oferecer água. Ou tivesse fome, e lá estava um irmão a oferecer uma laranja, uma bolacha. Ou de um penso ou de uma agulha. O grupo, que a princípio eram três: o das crianças, o dos adolescentes e o dos adultos, tornou-se o rancho da Matriz de Nossa Senhora da Estrela da Ribeira Grande. E com orgulho o diziam quando o perguntavam. Esbateram-se as diferenças. Até parece que desapareceram.

Ao desfilarmos pela Ribeira das Tainhas em direcção ao centro de Vila Franca do Campo, era evidente para os de fora do rancho que connosco seguiam o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Quinto dia: De Água de Pau aos Arrifes (Quinta-feira)

 

Não porque existam mais caminhos iguais às Gaiteiras, o caminho é todo chão, mas, para mim, e para muitos, é o pior dia de todos. À medida que nos aproximamos de Ponta Delgada, o trânsito cresce. O rancho redobra a atenção. Já houve casos de atropelamento.

Na primeira vez que saí na romaria, já lá vão vinte e quatro anos, devo confessar que me senti um intruso em Ponta Delgada. Perguntei a outros romeiros e eles confessaram-me ter sentido o mesmo. Mais do que um intruso, uma relíquia do passado. Muitas pessoas nem sequer olhavam para nós, voltavam-nos as costas. Outras olhavam com desdém. Com ar trocista. Isto é uma vergonha para os turistas! Que pensarão eles de nós? Que somos uns atrasados. Na segunda, mudara.

Se na primeira tomara uma só vez duche, na segunda não havia casa que não tivesse casa de banho. Na primeira, cheguei a dormir em casas sem luz eléctrica. Já na segunda, não havia casa sem televisão, máquina de lavar ou de secar roupa. O parque automóvel aumentara igualmente. E já havia ranchos urbanos. Ponta Delgada mudara. Alguns por convicção. Outros talvez por dar jeito ao negócio. Outros por tradição.

Cada irmão do rancho prepara-se para o encontro das famílias com um misto de alegria e de tristeza. Aliás, muitos há que, quando chegam ao fim, desejam continuar. E muitos vão em outros ranchos.

Cheguei ao Paim, então um descampado, com uma enorme bolha no calcanhar esquerdo. Ainda um irmão me meteu uma linha. Aguentei até à igreja dos Arrifes. Naquela noite fui dormir, mais outro irmão, a casa de um casal de idosos, que vivia numa casa sem luz eléctrica nem casa de banho. Jantámos dois ovos estrelados, amarelos que regalavam, com inhame, morcela e chouriço, e bebemos uma tigela enorme de chá louro com uma colher de açúcar.

Sexto dia: Dos Arrifes às Sete Cidades (Sexta-feira)

O rancho rezava as suas orações e eu rezava pensando na minha vida profissional. Fui nisto por muitos quilómetros, quando me aconteceu o melhor do dia na subida para as Sete Cidades. Por pior que o dia corresse, houve, quase sempre, algo bom para contar. Deixei de me sentir. Pura e simplesmente. Agora, não me importo que acreditem ou não no que digo, mas a verdade é essa: fundi-me com a natureza. Deixei de pensar. Quando voltei a pensar concluí que o melhor da oração é deixar de pensar. É estar e não ser. Não dava conta dos meus passos, das vozes dos meus irmãos, do vento, da chuvinha miúda, de nada. E depois voltei a senti-lo na ida e volta à Lagoa do Fogo na Páscoa do ano passado. A pior de sempre na minha vida.

Mas do êxtase passa-se à dor num ai, e na descida para as Sete Cidades vieram as dores, a chuva passou de miudinha rapidamente a aguaceiro medonho e encharcou o xaile.

Encharcado até aos ossos, esperámos sentados nos bancos da igreja das Sete Cidades. É horrível a sensação de se ter a roupa molhada no corpo. Para o evitarmos, afastávamos o xaile do corpo. Os romeiros, com a prática, descobrem pequenos truques, um deles é sentar-se ajoelhado para descansar um pouquinho. A gente ajoelha-se, mas ao mesmo tempo, encosta-se atrás. E sempre dá algum alívio.

Fomos arrumados em casa de uns irmãos que também iam nas romarias. Fui com o irmão-mestre. Naquela casa comi a melhor sopa de inhames de toda a minha vida. Nunca tinha comido sopa de inhames.

Sétimo Dia: Das Sete Cidades ao Pico da Pedra (Sábado)

Nas Sete Cidades, as madrugadas nesta altura do ano são bem geladas, os irmãos esperavam uns pelos outros, batiam com os pés no chão, xaile na cabeça, e protegiam-se do frio contra uma parede abrigada do vento. Conversávamos. Um dos temas girava à volta do futebol. Ou sobre o caminho à nossa frente.

Cada grupo de irmãos toma o pequeno-almoço nas casas dos irmãos. Ninguém pede nada. É a regra. Nem ao jantar. Nem ao pequeno-almoço. E temos o dever de deixar tudo limpo e em ordem. Cama feita. Loiça arrumada. É a honra do rancho que está em jogo. Nem pensar em trazer nada do que não seja seu.

Chegámos a João Bom molhados até aos ossos. A roupa, que havia sido mais ou menos seca à boca do forno na noite anterior, estava de novo molhada. E as sapatilhas também.

O café de cevada, que detesto, em João Bom soube-me ao melhor dos cafés e a sanduíche de pão, manteiga e queijo, um manjar dos deuses do Olimpo.

Mais à frente, na tal curva da Bretanha, por entre pastos, numa ponta sobranceira ao mar, o rancho exultou de alegria ao avistar a Ribeira Grande. Estamos quase em casa. O almoço seria na Casa do Povo de Santo António Além-Capelas.

O meu calcanhar, se antes me incomodava, agora doía-me a sério, mal podia encostar a sapatilha ao calcanhar, sobretudo nas descidas, nas incontáveis descidas das Bretanhas. Transferindo parte do peso do corpo para o outro pé, iria, inevitavelmente, mais quilómetro menos quilómetro, piorar a situação. Fui fazendo um esforço sobre-humano para acompanhar o rancho. Comecei a atrasar-me ligeiramente. Quando o rancho parava para descansar, nós continuávamos a andar no mesmo passo. Aí começou o meu martírio até entrar na Matriz de Nossa Senhora da Estrela.

A recta dos Fenais da Luz foi um penoso calvário. Mas segui em frente. Um irmão ao meu lado, que havia prometido desistir logo no segundo dia, voltava a prometer o mesmo. A minha oração, a partir de então, foi só a de chegar à Matriz custo o que custasse.

A missa no Pico da Pedra foi à hora marcada. Cheirava já a casa. Viam-se muitas caras conhecidas na igreja.

Oitavo dia: Do Pico da Pedra à Matriz

Na madrugada do dia nem me consegui pôr de pé sozinho. Apesar das pomadas para aliviar as dores musculares, do pó para secar a ferida no calcanhar, mal conseguia dar uma passada.

À minha volta, alguns como eu. Outros, porém, apesar das mazelas, ninguém estava sem se queixar do que fosse, pareciam estar mais viçosos do que couves na horta.

E depois de duas paragens, uma na ermida lá no alto e outra na igreja do Bom Jesus, o rancho passando de novo por mim, parou a descansar em Santana.

Não sei o que não me doía, mas sei que a dor que se sente é a dor maior de todas que nos aflige e, quando esta deixa de doer, é a segunda dor maior que se começa a sentir. Naquele momento já não era o calcanhar esquerdo, eram também os músculos de ambas as pernas.

A partir daí, o ritmo do grupo abrandou, mais crianças entraram no rancho, que a esta altura era já enorme, entrámos na rua Direita e dentro dela entrámos na igreja da Conceição, o povo de pé aplaudiu-nos como se fôssemos heróis. De volta à rua Direita, nos passeios as pessoas aplaudiam-nos, os sinos da nossa Matriz tocavam festivamente. Fizemos a oração. AS famílias rodearam-nos. Entrámos pela porta por onde oito dias antes havíamos saído. Mas não éramos os mesmos de há oito dias atrás. Éramos irmãos.

E tu, já foste de romeiro? Ou conheces alguém que já tenha ido na romaria? O que achas desta tradição? Comenta aqui ou na publicação na página de Facebook da Agenda dos Açores!

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