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Dia 12 de fevereiro celebra-se o dia de Darwin como uma forma de celebrar a Ciência e as suas descobertas. A 12 de fevereiro de 1809, nascia o naturalista britânico que chocaria o mundo com a teoria que, dois séculos mais tarde, se tornaria a mais aceite entre os cientistas para explicar alguns fenómenos ligados à evolução dos seres vivos: a Teoria da Evolução das Espécies. Esta teoria defende que os seres vivos, inclusive o homem, descendem de ancestrais comuns, que se modificam ao longo do tempo. Assim, as espécies existentes foram evoluindo de espécies mais simples que viveram antigamente. A Teoria Darwinista influenciou sobremaneira o modo como os cientistas vêm a vida e sua origem, perdurando até aos dias de hoje, com algumas reformulações, devido a maiores conhecimentos sobre Genética, que não existiam no século XIX, dando origem à teoria da origem das espécies mais aceite nos dias de hoje, a Teoria Sintética da Evolução ou Neodarwinismo.

O que algumas pessoas não sabem é que este naturalista e cientista inglês esteve nos Açores, mais precisamente na ilha Terceira, onde esteve por seis dias, no âmbito da sua volta ao mundo no HMS Beagle, que, ao contrário da viagem de Phileas Fogg, não durou 80 dias, mas, sim, quase cinco anos!

HMS Beagle aporta em Angra do Heroísmo

Cais e Alfândega de Angra do Heroísmo. Bilhete Postal circulado em 1903. Retirado da página de Facebook História dos Açores

Em junho de 1836, o brigue HMS Beagle contorna o Cabo da Boa Esperança, após ter estado em África do Sul, através do Oceano Índico, e volta a cruzar o Atlântico, com escala no território ultra-marino britânico Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha, antes de atravessar para Cabo Verde. Com 4 anos, 8 meses e 9 dias de viagem, depois de contornar o mundo e visitar 40 ilhas, o HMS Beagle deixa o porto da Praia, na ilha de Santiago, e dirige-se para a última paragem da expedição: o arquipélago dos Açores.

No dia 19 de setembro, o brigue atraca no porto de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Eis as primeiras impressões de Darwin em relação a Angra do Heroísmo:

 À tarde alguns de nós foram a terra; achámos a pequena cidade muito cuidada, com perto de 10.000 habitantes, cerca de um quarto total da ilha.

Não existem boas lojas e são poucos os sinais de atividade, com exceção do intolerável ranger de um ocasional carro-de-bois.

 

Visita às Furnas do Enxofre

No dia seguinte, Darwin, juntamente com alguns guias, dirigiu-se a cavalo, cedido gentilmente pelo Cônsul inglês (o capitão FitzRoy), para um local no centro da ilha, que era descrito como uma cratera ativa, as Furnas do Enxofre.

De seguida, entraram num terreno muito irregular, formado por escorrências mais recentes de uma lava basáltica com muitos altos e baixos, ou seja as escoadas lávicas basálticas que ocupam a Caldeira do Guilherme.

Pelo caminho, Charles Darwin viu alguns amigos Ingleses entre os insetos e as aves, o estorninho, a alvéola, o tentilhão e o melro-de-bico-amarelo.

Tentilhão, Melro-de-bico-amarelo, alvéola cinzenta e estorninho, respetivamente. Fotos de Carlos Ribeiro, retiradas do livro Para Além das Núvens – Aves nos Açores, Letras Lavadas Edições

O que Darwin não sabia era que essas aves tão comuns, tanto nos Açores como no Reino Unido, nas ilhas açorianas adquiriram ligeiras diferenças, quase imperceptíveis, quer na morfologia, quer na plumagem, sendo consideradas, anos mais tarde, após estudos mais aprofundados e minuciosos, subespécies endémicas dos Açores.

Mas acertou ao se deparar com as Furnas do Enxofre, a denominada caldeira, de que esta consistia na verdade numa ligeira depressão, ou aliás num pequeno vale confinado por uma cota mais elevada e sem nenhuma saída.

Postal com as Furnas do Enxofre na ilha Terceira, 13 de abril de 1910.  Retirado da página de Facebook História dos Açores

O vapor perto dos orifícios irregulares é demasiado quente para a mão o suportar. Tem apenas um ligeiro odor, porém, uma vez que tudo o que era feito de ferro escurecia, e que gerava uma sensação áspera peculiar na pele, o vapor não pode ser puro, e imagino que contém algum ácido muriático.

Gostei do passeio do dia, apesar de não ter visto muitas coisas que valham a pena (a não ser o povo terceirense)

Quotidiano do povo terceirense no início do século XX. Foto retirada da página de Facebook História dos Açores

O passeio, na ótica de Charles Darwin, foi agradável, mas para avanços científicos, na sua opinião, ficou muito aquém das suas expectativas. No entanto, deixou-se encantar pelas gentes terceirenses e o seu tão característico bom humor:

Foi agradável conhecer um tão grande número de camponeses encantadores; não me lembro de ter estado perante um grupo de homens mais elegantes, com tantas expressões agradáveis e bem humoradas.

Vendedor de leite, na primeira década do século XX. Foto retirada da página de Facebook História dos Açores

Apesar do aspeto pobre dos camponeses terceirenses, com os seus casacos e calças simples, sem sapatos nem meias, e as suas roupas muito esfarrapadas, Darwin ficou surpreendido pelo facto de estarem particularmente limpasassim como as suas pessoasAlém do bom aspeto possível entre pessoas bastante remediadas, com o seu aspeto rosado, olhos brilhantes e postura ereta, dando-lhes uma imagem de elegantes camponeses: quão diferentes dos portugueses do Brasil, o cientista também se deixou encantar pelo bem-receber dos terceirenses, que levantavam a pequena carapuça de pano azul com duas orelhas e uma bordadura vermelha, de forma mais cortês à passagem de cada estranho, além de que lhe asseguraram que em quase todas as casas de campo, um visitante dorme em lençóis brancos e janta com um guardanapo limpo.

Trabalho de campo na Quinta de Santa Luzia na Terra Chã, em 1900. Foto retirada da página de Facebook História dos Açores

Outra coisa de que Darwin se dá conta é o trabalho árduo das suas gentes, desde o pai ao rapaz mais novo, muitos terceirenses vêm-se “forçados” a emigrar para o Brasil, onde o contrato a que estão sujeitos difere pouco da escravatura.

É de lamentar que uma população tão encantadora deva sentir-se compelida a deixar uma terra de abundância, onde todo o tipo de alimento – carne, vegetais e fruta – é extremamente barato e muito abundante; o trabalhador apercebe-se que o seu trabalho e proporcionalmente pouco valorizado.

Visita à Vila da Praia

Relheiras. Foto: António Araújo / LUSA

No dia 22 de setembro, de manhã, Darwin visitou a Vila da Praia (atual cidade da Praia da Vitória), no nordeste da ilha. O que mais o intrigou na visita, foram as “relheiras” nos diversos locais, que devido ao grande movimento de carros-de-bois, a lava sólida em que consistia parte da estrada, estava desgastada em sulcos com profundidade de doze polegadas [30,5 centímetros].

No entanto, Darwin não ficou impressionado com a paisagem que viu, não sendo, de todo, aprazível, exceptuando um sempre agradável encontro com um camponês feliz.

HMS Beagle atraca em Ponta Delgada

Foto: 25 de novembro 1866; Cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel. Retirada da página de Facebook História dos Açores

A ilha de São Miguel é consideravelmente maior e três vezes mais populosa, gozando de um sistema de trocas mais extensas que a Terceira. A principal exportação é a fruta (referindo-se essencialmente à exportação da laranja para a Inglaterra, que, no século XIX, era o principal motor da economia da ilha micaelense. Ninguém adivinharia que seria este o grande mercado das inúmeras laranjas importadas por Inglaterra.

No entanto, a visita apenas foi uma escala de uma hora, não permitindo a Darwin explorar a ilha, dando apenas para conseguir comparar a morfologia agrária e urbana da ilha com a da ilha Terceira e um pouco da sua geografia.

São Miguel tem muito o aspeto de campos abertos semi-verdes e retalhados de cultivos que a Terceira. A cidade é mais dispersa; as casas e igrejas estão caiadas de branco, e à distância parecem arrumadas e bonitas.

A terra por detrás da cidade é menos elevada que na Terceira, mas mesmo assim eleva-se consideravelmente; é espessamente salpicada, ou mais exatamente, composta por pequenos montes mamiformes, cada qual um vulcão ativo em tempos idos.

Para a formulação deste artigo, foi consultado o livro Darwin nos Açores: diário pessoal com comentáriospor José Nuno Pereira e Verónica Neves (tradutores) e contributos de João Carlos Nunes (vulcanólogo), Susana Serpa Silva (historiadora) e Paulo J.M. Barcelos (engenheiro agrónomo). Edição do Observatório do Mar dos Açores, Horta, 2009.

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