Open/Close Menu Todos os eventos dos Açores

Está patente até 17 de fevereiro, no Núcleo de Santa Bárbara do Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, a exposição António  Eduardo Soares de Sousa Em Três Estações, com a comissão de Leonor Almeida Pereira.

Neste artigo do Top Azores, conhece um pouco da obra do arquiteto e artista plástico António Eduardo Soares de Sousa. Uma espécie de excursão pelas Três Estações (mansions): Estação do Inferno, Estação da Comédia e Estação do Paraíso.

É-me difícil exprimir o que procuro na pintura quando parto para esse encontro, fazendo-o de um modo quase intuitivo. Direi, talvez, que necessito reinventar o real, pois o real não se esgota na sua aparência.

Nestas representações procuro a expressão poética, condimento que pode amenizar os aspectos negativos do real. (…) Creio ainda que qualquer técnica ou modo de fazer arte terá, para ser indispensável, que produzir pensamento, interrogação e respostas. Está é, quanto a mim, a missão da arte.

 

António Eduardo Soares de Sousa, in António Eduardo Soares de Sousa em Três Estações, Co-edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direção Regional da Cultura, Museu Carlos Machado e Letras Lavadas.

Biografia

Foto: António Ferreira Pacheco – MCM

 

Amador de arte: era assim que António Eduardo Soares de Sousa se considerava, quando pelos seus 14 anos se interessou pelo desenho; que era constituído, na altura, por pequenas figuras populares, ainda presentes na vida da cidade, e outras em gravuras que desenhava a tinta da china, explorando a gradação de tons em aguadas e tímidos apontamentos de cor; até que em meados de 1950, foi absorvendo o mundo das artes plásticas, tornando-o um «alimento afectivo e sensorial indispensável».

Em 1951, quando Soares de Sousa tinha 18 anos, ofereceram-lhe uma pequena caixa de tintas a óleo, permitindo-lhe aperfeiçoar esta técnica primeiro em pequenas molduras, em que se notavam as influências da modernidade: Claude Monet, Cézanne, Picasso, os neorrealistas sul-americanos e os expressionistas, especialmente Emil Nolde.

Devido às suas novas vivências em Lisboa, onde prosseguiu estudos em Arquitetura na Faculdade de Belas Artes desta cidade, onde o jovem António Eduardo Soares de Sousa tinha como hábito folhear livros de arte nas livrarias e visitar museus e galerias de arte, tomou contacto com outras visões e perspetivas artísticas, nomeadamente o surrealismo. Foi nessa altura, que descobriu as obras de Almada Negreiros e Amadeo de Sousa Cardoso.

Procurou depois criar uma linguagem pessoal, com influências visíveis da prática da arquitetura, nomeadamente pelas formas e pela luz da paisagem arquitetónica em si, construindo, assim, um património de paisagens únicas.

 

Busquei formas na enorme panóplia de caminhos artísticos que o século XX exibiu, explorando a individualidade e a liberdade, destruindo e recompondo barreiras, sempre insatisfeito, ao ritmo das forças de mudança social. A lição mais importante que fui beber ao passado foi a do esforço para encontrar um caminho que melhor correspondesse à minha base emotiva: o ser humano, as vidas, a paisagem com as suas formas e luminosidades. Com esse material, fui interpretando, construindo visões, buscando expressões.

 

António Eduardo Soares de Sousa, in António Eduardo Soares de Sousa em Três Estações, Co-edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direção Regional da Cultura, Museu Carlos Machado e Letras Lavadas.

Pintura

Sem título, 2010. Coleção Museu Carlos Machado

 

Na diversidade reunida, cerca de 190 pinturas oferecidas pelo artista ao Museu Carlos Machado, é «possível reconhecer afinidades que, embora não se corporizem formalmente do mesmo modo, nos levam a arriscar um possível relacionamento do todo, subdividido em três locais dramáticos» (estações, mansions), que foram condensados em três: Estação do InfernoEstação da ComédiaEstação do Paraíso.

 

Manuela Bronze, António Eduardo Soares de Sousa em Três Estações, Co-edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direção Regional da Cultura, Museu Carlos Machado e Letras Lavadas.

Estação do Inferno

Consiste numa série de desenhos a tinta da china de inícios da década de 50. Corrente Neorrealista. Solidão. Cansaço. Fome. Desengano. Retratos da fragilidade do ser humano, dando conta das preocupações do inferno social que este movimento ousou denunciar.

A precariedade e a pobreza dos trabalhadores da cidade e do campo, assim como o contraste avassalador da beleza e serenidade paisagísticas de São Miguel e cenas de interior com alguma dimensão erótica são os temas das pinturas desta estação.

Estação da Comédia

Sem título, 2012, Guache sobre o cartão canelado, 41,7 x 54,7 cm. Coleção Museu Carlos Machado

 

Imagética por vezes surrealista, em que uma certa distorção figurativa, despida de moralismo, faz conviver na representação mulheres, homens de chapéu, equídeos, canídeos, pássaros e ratos. Uma visão surrealizante e intimista da vulnerabilidade das personagens e dos seus desempenhos numa vida periférica, moldada pela necessidade e pelo preconceito, a interiores que não descrevem nenhum acontecimento notável, mas fazem referência a grandes temas e sentimentos, como a ternura, a solidão, a falta de comunicação ou o erotismo.

 

Manuela Bronze, António Eduardo Soares de Sousa em Três Estações, Co-edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direção Regional da Cultura, Museu Carlos Machado e Letras Lavadas.

Estação do Paraíso

Ouvindo Jonh Adams, 2012, Aguarela sobre papel, 32,2 x 50 cm.  Coleção Museu Carlos Machado

 

Associa-se à ideia de paraíso, a comunhão com a natureza, a hipótese pacificadora e reconciliadora do homem com o mundo.

Esta estação é muito influenciada pela arquitetura, que estabelece com a natureza um jogo de planos e arcos que oculta e desvenda o que víamos e o que vemos. «Define o mundo em três planos, monta uma cenografia, um habitáculo à espera de personagens, consciente da imaterialidade dessa quarta parede – a da distância conveniente para que o espectador possa fazer o melhor enquadramento face ao compromisso que ele nos propõe. Desta construção resultará, uma vez mais, uma proposta de teatralidade que faz emergir no espectador um conjunto de impressões alteradas, e cuja identidade é conferida pela memória (…). Uma ideia de unidade que parte da identidade pessoal e da compreensão de que a fragmentação é ilusória, ainda que verosímil porque convincente».

 

Manuela Bronze, António Eduardo Soares de Sousa em Três Estações, Co-edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direção Regional da Cultura, Museu Carlos Machado e Letras Lavadas.

Algumas das pinturas que podes ver na exposição:

1.

Sem título, 1988, Técnica mista sobre papel, 27 x 36 cm. Coleção Museu Carlos Machado

2.

Sem título, 1997, Aguada e caneta sobre papel, 32,5 x 25 cm.  Coleção Museu Carlos Machado

3.

Sem título, 1993, Guache sobre cartolina, 35 x 50 cm.  Coleção Museu Carlos Machado

4.

Sem título, 1994, Acrílico sobre cartão, 36,7 x 43,8 cm.  Coleção Museu Carlos Machado

5.

Sem título, 1998, Guache sobre papel cartonado, 37 x 44 cm. Coleção Museu Carlos Machado

6.

Sem título, 2005, Acrílico sobre cartão, 36,9 x 44 cm. Coleção Museu Carlos Machado

7.

Sem título, 1991, Acrílico sobre platex, 55 x 73 cm. Coleção Museu Carlos Machado

8.

As ruínas, 1954, Tinta da China e aguarela sobre papel, 19,8 x 26,8 cm. Coleção Museu Carlos Machado

9.

Sem Título, 2011, Aguarela sobre papel, 29,5 x 40,6 cm. Coleção Museu Carlos Machado

10.

Sem Título, 2006, Guache sobre cartolina, 38,8 x 52 cm. Coleção Museu Carlos Machado

11.

Somos personagens inconvenientes, 2012, Aguarela sobre papel, 32,5 x 46 cm. Coleção Museu Carlos Machado

12.

Bichos, 2007, Guache sobre cartolina, 29,7 x 50 cm. Coleção Museu Carlos Machado

13.

Homenagem à lua alaranjada, 2015, Aguarela sobre papel, 29,7 x 41,8 cm. Coleção Museu Carlos Machado

14.

Homenagem à lua gigante, 2015, Aguarela sobre papel, 29,7 x 41,8 cm. Coleção Museu Carlos Machado

Informação e pinturas retiradas do livro António Eduardo Soares de Sousa Em Três Estações.  Para mais informações e conhecer o catálogo da exposição, poderás comprar o livro na nossa loja online Letras Lavadas, na seguinte ligação:

António Eduardo Soares de Sousa Em Três Estações

Consegues depreender a que estação pertence cada pintura? O que achaste das obras de António Eduardo Soares de Sousa? Quais as tuas pinturas preferidas? Comenta aqui ou na publicação na nossa página de Facebook.

Se gostaste deste artigo, lê também:

Top Azores: 15 PINTORES açorianos que tem mesmo de conhecer

PARTILHE ESTE EVENTO:

Write a comment:

*

Your email address will not be published.

Logo_footer   

   

error: O conteúdo deste evento está protegido!